Escola Politécnica

Formando engenheiros e líderes

Dia 28 de março, um dia de marcos e memória

Na última sexta-feira, a Escola Politécnica (Poli) da USP diplomou quatro estudantes mortos pela Ditadura Militar. A data ainda marca o aniversário de nascimento e de morte de outros dois importantes líderes estudantis, também mortos pelos agentes do regime

“Mataram um estudante! Podia ser seu filho!”. A notícia da morte do jovem Edson Luís – estudante assassinado em manifestação por melhores condições estudantis em março de 1968 – impactou a mãe e dona de casa, moradora do ABC paulista, Borborema Hanssen. Como bradaram os estudantes em protesto por todo o País, ela chorou como se tivesse perdido o seu próprio filho. A bala que tirou a vida do menino de 18 anos no dia 28 de março de 1968 veio da ação policial do governo militar de Costa e Silva. O choro de Borborema se prolongou no tempo, assim como as dores e os anos de chumbo se apropriaram de sua vida. 

Por crueldade – ou aviso – do destino, as lágrimas pela morte do jovem secundarista se tornaram uma premonição para os próximos anos da vida da dona de casa e moradora de Mauá. Dois anos após a ida de Edson, Borborema chorou novamente. Em maio de 1970, Olavo Hanssen, seu filho, foi preso, torturado e morto pelos agentes da Ditadura Militar.

Passados 55 anos, Olavo pôde ter realizado o sonho de muitos estudantes brasileiros: o de se formar no ensino superior. Sua mãe, por cobrança do tempo, não esteve presente para chorar de alegria ao saber que o filho recebeu o diploma de engenheiro pela Escola Politécnica (Poli) da USP na tarde do dia 28 de março de 2025. Mas esteve e se fez presente um terceiro membro da família Hanssen: a irmã caçula de Olavo, Alice. 

Alice Hanssen tinha 22 anos quando o seu irmão foi morto. Apesar da dor da perda, ela encontrou no singelo papel que registra a graduação de seu irmão um conforto à alma e um presente à memória de sua família. “Nós estamos num momento em que precisamos defender, com unhas e dentes, a nossa democracia, que é muito frágil”, afirmou em seu discurso após receber o diploma.

Imagem: Reprodução/Comunicação Poli-USP/Flickr.

Ver a beleza e em gesto pequeno ter a imensidão

Juntos pela dor, familiares de Lauriberto José Reyes, Luiz Fogaça Balboni e Manoel José Nunes Mendes Abreu também estiveram presentes para receber os diplomas de seus entes amados. Unidos pelo privilégio de lembrar, gerações de politécnicos egressos e jovens militantes da Universidade se juntaram para a Diplomação da Resistência.

Golpes de Estado prolongam no tempo as mortes das quais são autores os agentes da repressão. O Golpe calou vozes, naturalizou a tortura e assassinou vidas de prósperos jovens como os politécnicos homenageados. E não bastassem as emoções do momento, Regina Reyes, irmã de Lauriberto – mais conhecido como Lauri -, também prestou em suas palavras uma homenagem à vida de Honestino Guimarães.

Primeiro estudante da UnB postumamente diplomado, Honestino completaria 78 anos de idade no dia da Diplomação da Resistência. A filha do líder estudantil, Juliana Guimarães, esteve presente na cerimônia da Poli e as reflexões de Regina sobre a fragilidade e a necessidade de cuidado que devemos ter para com a democracia, a liberdade e a memória brasileiras comoveram os presentes. 

“A memória não morrerá porque mesmo sendo uma planta resistente, [a democracia] precisa ser regada, cultivada, replantada e reconquistada a cada dia. A memória não morrerá pelo que já foi construído, mas estará sempre em disputa, a partir de interesses contrários, que a gente lembre o que se passou neste País, e o que precisa mudar nele”, declarou Regina.

Sair da escuridão e do ódio que o vazio e o silêncio de uma perda podem trazer à uma família e a uma nação exigia um ato de responsabilidade e coragem que o governo brasileiro não tinha se posto a realizar para além da criação das Comissões da Verdade, em 2011. Para a senhora Maria das Graças Mendes Nunes Abreu, irmã mais velha de Manoel, o projeto Diplomação da Resistência trouxe à luz os sonhos e os ideais dos diplomados sobre um futuro de paz e justiça.

Os resgates das memórias dos entes queridos foi fundamental para ressignificar padrões e laços sociopolíticos que permeiam a sociedade brasileira desde aquela época. Acompanhada da irmã Maria Fernanda Nunes Mendes Abreu e dos seus netos, Maria da Graça relembrou o passado dolorido de sua família – que veio de Portugal ao Brasil para escapar do Regime de António de Oliveira Salazar – e manifestou a sua esperança nas gerações futuras. 

A iniciativa da Diplomação da Resistência foi um momento pensado, construído e oferecido aos familiares dos diplomados e aos presentes para se pensar e defender a democracia e liberdade da população brasileira. Vital Fogaça Balboni, irmão de Luiz – ou Zizo, como era conhecido – lembra com carinho e saudade de seu irmão mais velho, dos momentos em que passaram juntos em São Paulo e da espontaneidade do politécnico. 

Como um dos idealizadores do Parque do Zizo, área florestal destinada a honrar e rememorar a vida de Luiz Fogaça Balboni, Vital mostrou a sua preocupação em manter a imagem de seu irmão viva entre aqueles que o conheceram. Mas não apenas manter a imagem do irmão viva, ele também se preocupa constantemente com o direito à liberdade, o direito da pessoa humana de ser livre.

Aquietar o silêncio das dores 

Roda de conversa "Memória Universitária". Flickr Poli-USP.

Apesar das perdas, do luto e da saudade, o momento de se cobrar todo o sofrimento causado pela Ditadura Militar chegou, como declamado nos versos da canção Apesar de Você, de Chico Buarque. Antes do cerimonial, a Escola Politécnica (Poli) sediou uma Roda de Conversa sobre as memórias da Ditadura Militar de forma a promover um ambiente para encontros e debates entre gerações de politécnicos e de não-politécnicos.

Lembrar a barbárie do passado permite que a sociedade possa zelar para que atos hediondos como os ocorridos não se façam presentes na história vindoura. Maria Arminda do Nascimento Arruda, Vice-Reitora da USP, disse durante a cerimônia que o projeto é uma forma de defrontar aqueles que ousaram e aqueles que ousam violar os Direitos Humanos. 

A não violação desses princípios tem sido defendida por personalidades da política brasileira. Em sua fala, a Pró-Reitora de Inclusão e Pertencimento da Poli, a Professora Ana Lúcia Duarte Lanna parafraseou a fala do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino: “Golpe de Estado mata. Ninguém morre no primeiro dia do Golpe de Estado, mas a morte no Golpe de Estado se prolonga no tempo, porque ela diz respeito a torturas, desaparecimentos e o assassinato de pessoas envolvidas. É uma morte lenta e hedionda”.

A colocação do ministro veio durante julgamento realizado no dia 26 de março, em que a Primeira Turma do STF decidiu aceitar a denúncia contra o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e outros sete ex-integrantes do seu governo, sendo três generais do Exército. A decisão reforça a importância de atos de rememoração e reparação dos anos da Ditadura Militar, como o promovido pela Poli.

Para o Diretor da Escola Politécnica, Reinaldo Giudici, a Diplomação repara as injustiças e honra a memória dos politécnicos que foram mortos pelos agentes do Regime. Mesmo não sendo um momento de festividade tal qual seria uma formatura no cenário sociopolítico atual, o encontro honrou as memórias e vidas de Lauriberto José Reyes, Luiz Fogaça Balboni, Manoel José Mendes Nunes Abreu e Olavo Hanssen.

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